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O TEÓLOGO DA LIBERTAÇÃO
JUDAICA
O GLOBO - LIVROS - PERFIL - 03/jan/1993
DANIEL STYCER
O crime
descompensa
Nilton Bonder
Imago, 180 páginas
O escritor
gaúcho Moacyr Scliar diz que ele é uma espécie
de teólogo da libertação judaica. Tem uma capacidade
incrível de valorizar a dimensão humana da religião.
Uma de suas majores virtudes, opina uma astróloga amiga,
é fazer dessa tradição milenar uma religião
compatível com a realidade dos dias de hoje. Nilton Bonder,
35 anos recém-completos, é o que se pode chamar de
um rabino de sucesso, por mais estranho que o termo possa parecer
quando empregado para qualificar um rabino.
Engenheiro mecânico de formação,
graduado pela Universidade de Columbia, de Nova York, Bonder se
ordenou rabino no J ewish Theological Seminary, naquele mesmo estado,
em 1986. Em apenas três anos, escreveu uma trilogia que virou
best -seller: "A dieta do rabino - a cabala da comida",
"A cabala do dinheiro" e "A cabala da inveja".
São mais de 84 mil exemplares vendidos até agora.
Na esteira desse sucesso - e da reflexão sobre a crise moral
e ética vivida pelo país - Bo~der acaba de lançar
mais um .fivro pela editora Imago: "O crime descompensa - um
ensaio místico sobre a impunidade" (180 páginas).
- Trato de episódios simples da
realidade brasileira de uma maneira filosófica - explica
o rabino.
O livro tem capítulos com nomes
sugestivos, como "Suportando a impunidade", "O Bem
não tem que triunfar" e "Saiba responder ao herege".
Segundo Nilton, a idéia de que "o crime descompensa"
serve para contrariar o dito popular de que "o crime não
compensa". Para ele, esse dito dissimula uma percepção
muito ruim de que o crime só não vale a pena porque
não compensa.
- Na verdade, o que devemos ter em mente
é que qualquer delito, por maior ou mais direto que seja
seu resJlltado financeiro para um indivíduo, não compensa
e acaba desequilibrando a sociedade como um todo - argumenta o rabino.
Para explicar essa teoria, Bonder fala
sobre a questão ecológica e cita a violência
do Rio.
- Na sociedade carioca, um exemplo grande de descompensação
é o dinheiro ilícito estar misturado com o da benemerência.
Quando você tem o dinheiro da droga e do bicho sustentando
postos de saúde é sinal de que a sociedade está
tão descompensada que não encontra mais seus valores
- opina.
Em suas conversas particulares e nos ritos
que celebra em sua sinagoga, a Congregação Judaica
do Brasil, na Barra, da Tijuca, Bonder costuma debater trechos da
Bíblia e discutir diversos aspectos filosóficos, psicológicos
e até econômicos da tradição. Ele conta,
por exemplo, a história de um homem que viajava num barco
quando resolveu, de repente, fazer um buraco no casco, debaixo de
sua poltrona. Os demais tripulantes protestaram e pediram para que
ele parasse. Mas o sujeito respondeu: "Não se metam,
o buraco é debaixo da minha cadeira."
- A sociedade é um bem comum. Você
não pode, mesmo que seja por direito, por lei, ter certas
condutas - opina.
Bonder é um rabino nada comum.
Além de celebrar os ritos que a função exige;
como casamentos, bar-mitzvas e enterros, ele se veste e se comporta
como um jovem carioca. Gosta de correr na praia, de nadar e jogar
tênis. Ouve rock e usa um computador para escrever seus livros.
Casado com a arquiteta Esther Kramer, pai do recém-nascido
Daniel Bonder é muito requisitado a aconselhar jovens, idosos
ou casais em crise.
- Ele é um terapeuta da alma -
opina a astróloga Esther Sterenfeld.
Bonder conta que também é
chamado para atuar em situações paranormais:
- Há situações em
que as pessoas sentem vibrações complicadas, mal-assobradas,
e buscam o rabino para ajudá-Ias a se livrar dessas energias
ruins.
Bonder recorre então aos procedimentos
dentro da tradição judaica para exorcizar essas energias.
Ele cita casos de crianças "poltergeist" visitando
sua sinagoga.
- Certa vez recebi uma criança
problemática, que realizava fenômenos muito parecidos
aos descritos na literatura paranormal. Ao entrar na minha sala,
ela me transmitiu uma energia muito forte, pesada, e quebrou um
quadro com um diploma atrás de mim. São coisas que
a gente não sabe explicar - diz.
Gaúcho, morador no Rio desde a
infância, Nilton Bonder sempre teve curiosidade pela astronomia,
pela física teórica e assuntos místicos. Ele
rejeita o rótulo de "rabino moderninho".
- Apenas tiro o mofo e a poeira para que
as pessoas com alergia, possam chegar nos livros e aprender que
a tradição traz coisas lindíssimas - afirma.
Bonder diz que pertence a linha conservadora
da religião judaica, nem ortodoxa, nem reformista. Mas os
ortodoxos não pensam bem assim e não podem nem ouvir
falar em seu nome.
- Não o conheço pessoalmente,
nem tenho nada contra a pessoa dele. Sei apenas que não temos
uma linguagem comum e que temos divergências ideológicas.
Ele é super-super liberal opina o rabino ortodoxo Eliezer
Stauberg, da Sinagoga de Copacabana.
Bonder fala de Bonder:
- A diferença entre eu e
outros rabinos é que estou sempre preocupado em encontrar
uma ponte com a realidade das pessoas e não estar fechado
num quarto cheio de livros tentando sozinho elocubrar sobre a religião.
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