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UMA ENTREGA DE CORPO E ALMA
Clarice Niskier saboreia o sucesso com a peça A Alma Imoral
VEJA RIO - PERFIL - PERFIL - 08/NOV/2006
Débora Ghivelder
Ela fala sobre tradição
e traição. Desfia parábolas judaicas para definir
estes dois impulsos: o da perpetuação e o da ruptura.
E conclui que, por mais paradoxais que possam ser, estão
interligados. Ela fala sobre Abrão e outros patriarcas, cita
histórias de rabinos e cumpre boa parte da narrativa, que
dura cinqüenta minutos, nua. Ela é Clarice Niskier,
atriz carioca de 47 anos que experimenta com o monólogo A
Alma Imoral a felicidade de lotar, a cada sessão, as 420
poltronas do Teatro Leblon, onde está em cartaz às
terças e quartas. A peça, extraída do livro
homônimo do rabino Nilton Bonder e com supervisão de
Amir Haddad, estreou em agosto no Espaço Sesc. Em outubro,
mudou-se para o teatro da Rua Conde Bernadote para uma temporada
de um mês. Teve estada prorrogada até dezembro e acaba
de ser convidada a permanecer até março de 2007. Clarice
não tinha a menor idéia de que ia dar tão certo.
"É claro que não se monta uma peça para
dar errado. Mas eu já tinha a experiência de Buda (monólogo
anterior). Não aconteceu como eu imaginava. Aprendi. Fui
fazer este sem expectativas", conta.
Buda tem tudo a ver com A Alma Imoral.
Foi em uma entrevista em um programa de TV, para divulgar Buda,
que Clarice encontrou o rabino Nilton Bonder, que estava lançando
o livro A Alma Imoral. A dada altura, a entrevistadora perguntou
à atriz se tinha religião. Ela respondeu que sua ascendência
era judaica, mas que o teatro a havia levado ao budismo. Era uma
judia budista. Foi então que chegou uma mensagem indignada.
Dona Léa, uma telespectadora, dizia que isso não existia.
Ou Clarice era judia ou era budista. O rabino, então, socorreu
a atriz. Disse que talvez o budismo a aproximasse do judaísmo.
De quebra, deu a ela seu livro. Clarice leu-o e o resto está
no palco.
A Alma Imoral toca as pessoas porque
é feita com imensa entrega. É a verdade de Clarice
que faz com que o público a aplauda incansavelmente e saia
do teatro às lágrimas. O rabino concorda. "O
impacto que o espetáculo causa está na maneira como
Clarice diz o texto. No seu envolvimento emocional", diz Nilton
Bonder, que não se incomoda com a nudez da atriz. "Era
importante que a nudez não fosse o objeto do olhar de todos.
E Clarice conseguiu. Ela reflete a ousadia do texto, cenicamente,
com a nudez. E todos entendem", diz ele e completa: "Nunca
ouvi um comentário sobre isso". Nem Clarice. E olha
que não raro ela termina as noites em conversas filosóficas
com um ou outro da platéia, no lounge da vizinha livraria
Da Conde.
Ficar nua em cena não é novidade. Clarice encarou
o desafio de primeira, quando praticamente estreou no teatro, em
Porcos com Asas, em 1981. A Alma Imoral chega como presente para
celebrar 25 anos de profissão, a maior parte deles vivida
no tablado. "São 34 peças", contabiliza
ela, que trancou para sempre o curso de comunicação
social na PUC e mandou para escanteio o emprego de repórter-fotográfica
no Jornal do Brasil para atuar. Em tempo: dona Léa, se a
senhora ainda não viu a peça de Clarice, vá
lá. A gente adianta que hoje ela se sente mais judia que
budista. Afinal, como diria Clarice, transgredir também é
preservar.
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